Ontem, pelas vinte horas, António José Seguro fazia uma jogada política de mestre.
Curto e grosso, e surpreendendo aqueles que, no PS, aguardavam uma declaração de abstenção "em nome da pátria", conseguiu vários objectivos. O primeiro, representar eficazmente o partido que representa. O segundo, numa atitude claramente populista, angariar simpatizantes de centro, aqueles que decidem eleições, ao apresentar uma indignação tão "plebeia", a mesma que todos, neste momento, sentimos. O terceiro e, provavelmente, mais importante, condicionou fortemente a entrevista que o Primeiro-ministro viria a dar, uma hora mais tarde, na sua residência oficial.
Foi curto e grosso, como disse, e não poderia ser de outra forma. Aplaudo.
Não sei bem que pensar da postura de um PM tão "orgulhosamente só", a lembrar outros tempos. Se, por um lado, usava a máscara do salvador incompreendido, e transmitia um discurso de "vocês, os 10 milhões, vão dar razão a mim e à minha equipa, um dia, mais tarde", por outro, deixava-me com os nervos em franja, admitindo uma abertura ao diálogo em certas condições. E as condições são claras: eu falo convosco, mas o único cenário que admito é a vossa mudança de posições. Eu, por amor à pátria, vou até ao fim. Fiquei ainda com a percepção de que, apesar do teatro e das máscaras venezianas, PPC encontra-se fragilizado. A forma como se esquiva às acusações de dentro da coligação e do partido denota uma clara falta de argumentos. E se não conseguimos argumentar para dentro, como seremos capazes de convencer os de fora?
E, perdoem-me, púbicos leitores, mas este blogue foi, é, e manter-se-á fora das laranjas.
Foi com um certo sentimento inevitável de pena - a sério, ver o nosso PM tão moribundo faz-me sentir pena pelo país - que abandonei a entrevista a meio. Era claro que nada mais PPC tinha a acrescentar. Infelizmente, ele já se terá apercebido que a política governativa e medidas de gabinete climatizado que impõe ao país não surtirão efeito. Não vão resultar. Só lamento que seja incapaz de admitir erros e fracassos e de procurar alternativas reais.
Desviei-me do consenso, já sei. Mas a verdade é que, a Passos Coelho, reconheço um mérito. O mérito de unir os portugueses, de todas as cores político-partidárias, da esquerda à direita, do interior do seu partido, inclusive, contra as medidas injustas, ineficazes e altamente prejudiciais para o país e, sobretudo, para aqueles que fazem o país - as pessoas.
Pintelho