sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Consenso

Confesso que não deu.

 
Ontem, pelas vinte horas, António José Seguro fazia uma jogada política de mestre.

Curto e grosso, e surpreendendo aqueles que, no PS, aguardavam uma declaração de abstenção "em nome da pátria", conseguiu vários objectivos. O primeiro, representar eficazmente o partido que representa. O segundo, numa atitude claramente populista, angariar simpatizantes de centro, aqueles que decidem eleições, ao apresentar uma indignação tão "plebeia", a mesma que todos, neste momento, sentimos. O terceiro e, provavelmente, mais importante, condicionou fortemente a entrevista que o Primeiro-ministro viria a dar, uma hora mais tarde, na sua residência oficial.
Foi curto e grosso, como disse, e não poderia ser de outra forma. Aplaudo.

 Já após as vinte e uma, foi no conforto e segurança da sua residência, evitando manifestações que, teimosamente - vá-se lá saber porquê - teimam em rodear este governo, que Coelho respondeu às questões colocadas pelos elementos da RTP.

Não sei bem que pensar da postura de um PM tão "orgulhosamente só", a lembrar outros tempos. Se, por um lado, usava a máscara do salvador incompreendido, e transmitia um discurso de "vocês, os 10 milhões, vão dar razão a mim e à minha equipa, um dia, mais tarde", por outro, deixava-me com os nervos em franja, admitindo uma abertura ao diálogo em certas condições. E as condições são claras: eu falo convosco, mas o único cenário que admito é a vossa mudança de posições. Eu, por amor à pátria, vou até ao fim. Fiquei ainda com a percepção de que, apesar do teatro e das máscaras venezianas, PPC encontra-se fragilizado. A forma como se esquiva às acusações de dentro da coligação e do partido denota uma clara falta de argumentos. E se não conseguimos argumentar para dentro, como seremos capazes de convencer os de fora?
E, perdoem-me, púbicos leitores, mas este blogue foi, é, e manter-se-á fora das laranjas.
 
Foi com um certo sentimento inevitável de pena - a sério, ver o nosso PM tão moribundo faz-me sentir pena pelo país - que abandonei a entrevista a meio. Era claro que nada mais PPC tinha a acrescentar. Infelizmente, ele já se terá apercebido que a política governativa e medidas de gabinete climatizado que impõe ao país não surtirão efeito. Não vão resultar. Só lamento que seja incapaz de admitir erros e fracassos e de procurar alternativas reais.

Desviei-me do consenso, já sei. Mas a verdade é que, a Passos Coelho, reconheço um mérito. O mérito de unir os portugueses, de todas as cores político-partidárias, da esquerda à direita, do interior do seu partido, inclusive, contra as medidas injustas, ineficazes e altamente prejudiciais para o país e, sobretudo, para aqueles que fazem o país - as pessoas.

 Posto isto, este senhor deveria dar ouvidos ao consenso nacional e dialogar, não à sua maneira, mas na verdadeira acepção da palavra, com os seus parceiros sociais. E, se não for pedir demais, arranje-se outro governo, que ter o país, em estado tão débil, a ser governado por pessoas manifestamente incompetentes (já não há dúvidas disso), não me parece ser uma boa forma de retomar um bom rumo.

 Confesso que não deu. Para manter o sarcasmo fora deste blogue. Nem para ver a entrevista até ao fim, pois corria o risco de ataque cardíaco por excesso de cortisol.

 
Pintelho

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Discurso do estado da púbis

Caros e púbicos leitores.

 
Algures durante a noite passada, num convívio habitual, um conviva irritava-se com tudo o que fosse cor-de-laranja e lhe aparecesse à frente. Quem o pode censurar?

Nessa hora, após perder um lápis de cor laranja que entre os convivas circulava, pensei estar na altura de quebrar o silêncio sobre o circo governamental instalado.
 
Hoje, ao acordar, ainda pensei ser hora de escrever um discurso daqueles "à Pintelho", a insultar humoristicamente um Coelho, as Relvas e o Gasparzinho. Mas, enfim, ponderei melhor... E concluí que, efectivamente, brincar com a situação que o país e, concretamente, aqueles que, cada vez menos, ainda têm trabalho, atravessam seria algo de muito mau gosto.

Creio que, neste momento, a situação se tornou grave o suficiente para que já não tolere piadolas sobre governantes incompetentes que querem, à custa dos mesmos, dos que menos podem, resolver uma situação que também ajudaram a criar. Não, por mim, acabou-se a última pintelhice de humor que este blogue ainda tinha.
 
Algo que me irrita profundamente é que os tão sábios governantes da coligação não dominem as regras da lógica. Vejamos:

Se um aumento de impostos (A) em 2012 leva a uma quebra de receitas (C) por via de uma diminuição dos encaixes no imposto sobre o consumo (IVA) (B), então, por que carga de água é que, em 2013, um aumento de impostos (A) não levará a uma quebra no consumo (B) e consequente diminuição das receitas (C)? Serei eu o único iluminado? Claro está, já nem entro no campo da transferência de rendimentos dos trabalhadores para as empresas que, pobres que andam, precisam de mais. E depois, com aquele discurso molengão (cá para mim é propositado, para que as pessoas não o oiçam até ao fim, de tão irritadas e dormentes que ficam), ouvimos o Gasparzinho, qual fantasma da crise, anunciar que a redução da TSU das empresas não vai ser absorvida pelas margens de lucro. Ora, pois não… E medidas que o desincentivem? “Pois, vamos ter medidas que o desincentivem fortemente, a sério. Juro, juro…”. E ainda temos a crença no Pai Natal, com qualquer coisa como um “Acredito fortemente que as empresas produtoras de bens e serviços vão reduzir aos preços, reduzindo, assim, a quebra do rendimento disponível das famílias...”.

Ora, quando o nosso país está entregue a políticos que ainda acreditam no Pai Natal, algo não está bem.

Arrelia-me ainda a atitude da UGT que, apesar da afronta desmesurada àqueles que representa, insiste em não rasgar o acordo de concertação social. Não sou sindicalizado e, estando de fora, racho lenha, mas com centrais sindicais destas…

A oposição em bloco condena as medidas anunciadas pelos suspeitos do costume. Eventualmente, eu já vi este filme, mesmo que, na altura, o PS ainda não estivesse contra. O governo aprova medidas socialmente insuportáveis, o Presidente da República, cada vez mais uma figura de estado das revistas cor-de-rosa, abstém-se das suas responsabilidades políticas, e o TC chumba, mas só “para o ano (2014)”. Assim sendo, lá temos o Passos com o que pretende. Um país mais pobre (já dizia o outro, a antecipar o seu sucessor), menos satisfeito e competitivo e, a este ritmo, com uma agitação social crescente.

É por isso, púbicos leitores, que acho que deveríamos considerar aberta a época oficial de caça ao Coelho, de corte de Relvas, de arrombamento de Portas, de caça aos fantasmas, pois o Gasparzinho afinal não é um fantasma bom, entre outros espécimes que se possam cruzar com o nosso caminho.

Portugal, assim, não! Prefiro uma selecção que atira cinco bolas ao poste num jogo a uma equipa de governantes que insiste em marcar auto-golos, daqueles que contam a favor dos que menos precisam.
Pintelho