Esta posta bem podia ser um tributo ao mestre António Variações, mas não é, desenganem-se.
É, antes, uma apreciação do desempenho português no Your Better Life Index, da OCDE.
Ao entrar na página, o leitor depara-se, em letras garrafais, com o primeiro importante aviso à navegação que, no caso português, está a ser feita pela tripulação do Coelho: "Há mais na vida que os frios números do PIB e das estatísticas económicas".
Pois, disso já sabemos todos... Menos o Executivo.
Mas sobre governos, pouco mais adianta. Este estudo é sobre pessoas, sobre o que elas pensam e fazem. E é disso que vamos falat.
O estudo, graficado em flores, cobre 11 temas da vida de cada um dos 36 países-membro da OCDE.
São abordados temas relacionados com o bem-estar material, como o alojamento, emprego e rendimentos. Há ainda temas relacionados com a qualidade de vida - comunidade, educação, saúde, satisfação com a vida, participação cívica, segurança e equilíbrio trabalho-família.
Sendo eu um apaixonado por estas questões da qualidade de vida, fui investigar Portugal.
Antes de olhar para a frieza dos números, decidi-me a espreitar o entendimento da OCDE sobre a vida em Portugal.
Pode ler-se, algures no relatório, que o português ganha, em média, quatro mil dólares a menos, por ano, que o membro-médio da OCDE. Até aqui, nada de novo, somos pobres. A frase imediatamente seguinte é uma daquelas verdades que apenas o Coelho ignora. Os 20% mais ricos ganham seis vezes mais que os 20% mais pobres, sendo um dos países da OCDE com maior fosso entre ricos e pobres.
Quer-me parecer que tende a aumentar...
No que toca à educação, os números passam de alarmantes a assustadores. 30% dos cidadãos portugueses completaram o 12º ano, em comparação com uma média de 74%...
Em Portugal, estudar cansa. Somos, mesmo, o país com a mais baixa taxa de escolarização do estudo.
Mas nem tudo são agruras. Manter uma casa em Portugal é bastante mais barato que a média, consumindo a casa 18% do rendimento, contra os 22% nos restantes países estudados. Estamos, também, 5% mais satisfeitos com as condições de habitação que a média.
Muitos outros pequenos indícios poderiam ser abordados mas, como o post já vai bastante longo, vamos ao que interessa.
Se, em termos gerais, os indicadores nacionais se enquadram no segundo quartil do estudo, os "menos maus", há alguns indicadores dignos de nota.
Por um lado, o bom desempenho nas questões ambientais, com uma das maiores taxas de renováveis do estudo, e um excelente acesso a água potável, apesar da falta de espaços verdes nas urbes. Acresce um bom desempenho nas questões de equilíbrio trabalho-família, muito por culpa de um menor número de horas de trabalho anuais. Preocupa, aqui, o enorme fosso entre homens e mulheres no que ao trabalho doméstico diz respeito. Ainda somos, sem dúvida, um país machista.
Depois vêm aquelas escalas em que somos "dos piores". O envolvimento cívico / político - não confiamos nas nossas instituições nem nos políticos que nos representam. Será defeito da população?
A comunidade - somos pouco solidários e voluntários. Acreditamos menos nos relacionamentos de amizade. A educação, pelas razões acima mencionadas, comporta-se, também, bastante mal.
Com todos estes prós e contras, o facto mais perturbador prende-se com a satisfação com a vida. Seria de acreditar que, em linha de conta com os restantes indicadores, nos encontrássemos ligeiramente abaixo da média. Contudo, de 0 a 10, os portugueses dão 1 à sua satisfação com a vida, na 35ª posição, e apenas acima da Hungria. Muito abaixo da média.
Somos, pois, um país insatisfeito. Extremamente insatisfeito.
Resta, pois, saber por que é que não aproveitamos essa insatisfação para agir pela comunidade, para nos envolvermos politicamente, para educarmos os nossos filhos, ...
Não será este estudo um cartão amarelo a Portugal? Desta feita, não só ao governo, nem às instituições, mas sobretudo aos cidadãos? Não será hora de canalisar a insatisfação em prol de melhores condições? De um Portugal acima da média? De um país de sorrisos e felicidade?
Saltando de Variações para Palma, "Ai Portugal, Portugal, de que é que estás à espera?".
Eu, por mim, quando estou insatisfeito, mudo. Vamos todos trabalhar para uma mudança colectiva?
Pintelho
Se é um possível investidor em literatura, crítica, crónica, ou algo que enriqueça o seu conhecimento acerca do país e do mundo que o rodeia, este leilão não é para si. Caso contrário, pode continuar.
quarta-feira, 23 de maio de 2012
quarta-feira, 2 de maio de 2012
Eu sou da opinião de que a tua opinião está errada
Pois é. Quem é que nunca se cruzou com eles. Os do contra. Os do "não percebes nada disto". Mesmo que a esta frase não se siga nenhum contra-argumento.
Enfim, eu acho que toda a gente tem direito à sua opinião, ainda que devesse haver alguém que calasse algumas pessoas!
Pode ser um conhecido, amigo, familiar, a sogra, o sogro (normalmente estes são sempre do contra), a pessoa com quem dormimos à noite ou aquela que habita o nosso cérebro, mas a verdade é que todos nós conhecemos alguém do contra. Eu não conheço, mas vamos lá acreditar que o que escrevi é verdade...
E quem, caros leitores, nunca assistiu com alguém a uma peça jornalística sobre um tema polémico. As touradas, por exemplo. Que mau exemplo!
Vem um defensor das touradas argumentar, e eis a personagem (eu nunca seria assim) "Olha-me este, a defender que matar os pobres bichinhos é um espectáculo... Era quem lhe espetasse uma bandarilha nas costas dele...". A peça avança, ouve-se um elemento anti-tourada, e a voz "Estes, também, querem acabar com a tradição... Metam-se na vida deles!".
Ou na política. Ouve-se um deputado de esquerda (a propósito, eu já vos disse que isso da esquerda é uma fantochada irrealista?) criticar o governo, e um desabafo "Queria-te ver no lugar dele!". Peça seguinte, Coelho a falar sobre as medidas que a troika impôs ao país (já vos disse que o 25 de Abril está moribundo?), e um "Devias ter vergonha na cara em fazer isso aos portugueses!".
O meu clube joga mal, mas o dos outros é favorecido pela arbitragem...
Eu vejo sempre a SIC, mas a programação não tem sentido nenhum...
Eu acho uma estupidez as bebedeiras que a estudantada apanha nas Queimas das Fitas, mas já vou combinar a noite dos Alumni...
Eu acho mal o neoliberalismo assustador da Jerónimo Martins, mas andei à pancada para comprar papel higiénico mais barato...
Enfim, eu acho que toda a gente tem direito à sua opinião, ainda que devesse haver alguém que calasse algumas pessoas!
Pintelho
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