terça-feira, 6 de março de 2012

A cultura do medo

Ando distraído.
E como ando distraído, deixei passar, no Público de ontem, um estudo muito interessante.
Denominado de "O estado da nação e o seu avesso", o estudo do filósofo José Gil procura, com base em perguntas com resposta, traçar "o vazio", para o qual não temos resposta.
Ambas as tipologias de indicadores (os "cheios" e os "vazios") são interessantes.
Ficamos, por exemplo, a saber que os portugueses se consideram medianamente felizes, mas não sabemos se gostam mais de admirar ou de invejar. O leitor sabe? E quantos vivem activamente a solidariedade social? Sabemos que há uma maior sensação de aumento da pobreza que na média da UE, mas não sabemos quantos políticos se preocupam com a pobreza. Sabemos que os índices de educação dispararam em flecha, calando as vozes críticas à geração "rasca". Mas não sabemos quais os valores que ficam por ensinar na escola. Sabemos que a corrupção foi debatida em 8 sessões plenárias, de um total de 76 nesta legislatura. Mas não sabemos quantos portugueses se sentem, realmente, representados pelos deputados.
Estes são alguns dos exemplos do ensaio realizado pelo filósofo. Ele continua, é até bastante extenso.

Um dos indicadores que me chamou particular atenção é, curiosamente, um indicador dos que conhecemos, o da criminalidade violenta.
O estudo não aflora essa questão, enveredando antes pela pieguice dos portugueses, pelo "quantos é que não vão emigrar porque têm medo? Quantos é que não denunciam? Quantos têm medo do estado?". Eu prefiro ir por outro caminho, e arrisco-me a "lançar" o meu próprio indicador "vazio". Quantos portugueses acreditam que a criminalidade violenta está no nível mais alto de sempre? Provavelmente, uma maioria esmagadora. A verdade é que o índice mostra que estamos abaixo dos níveis de 2006, e sensivelmente ao nível de 2008. Então, o que leva os portugueses a acreditarem que tudo está "muito mais violento"?
A resposta parece clara: os media. Há dois anos, vivíamos uma época áurea de sensacionalismo político, em que Sócrates enchia jornais, pelas piores e melhores razões. E não havia tempo nem espaço para muito mais. Alguma corrupção, muito futebol, e as notícias estavam preenchidas.
Actualmente, vivemos o tempo áureo da troika, mas com tanto impasse dentro do governo, não há muito conteúdo para encher jornais, sobretudo se forem diários. A decisão dá-se a um ritmo alucinante...mente lento. Então vêm as botijas de gás, as mãos-armadas, entre outros. Tudo porque, e o jornalismo sabe-o muito bem, o medo vende. E aproveita-se da fragilidade emocional humana para encaixar receitas. Sejam elas de share ou de vendas directas. O medo vende. Portanto, como o Púbico quer começar a ser mais visitado, acho que vou começar a fazer aqui uns telefonemazinhos para os directores de informação dos principais meios de comunicação social...
Bem, talvez não.
Eu, por cá, acho que seria muito mais construtivo um jornalismo que se focasse em notícias que o fossem, e não nestas falsas notícias...
Mas se calhar sou só mesmo eu!

Pintelho

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