Até aqui,
tudo bem. Mais ou menos…
Pois bem, o
estudo (cuja análise remonta ao final do primeiro semestre do ano passado)
revela que, dos seis analisados, Portugal é o único país em que o rendimento
dos dois decis da população mais pobres diminuiu mais que o dos decis mais
ricos (6,1% contra 3,9%).
O índice
Gini, um dos principais indicadores de distribuição de riqueza aumentou, pela
primeira vez, desde 2003, ano em que iniciou uma tendência de descida
sustentada até 2009 (sendo "0" a total inexistência de
desigualdades).
Os dados
remontam ao governo Sócrates. Contudo, caro leitor, o aumento de impostos cegos
como o IVA, a diminuição das prestações sociais (que não são propriamente
dirigidas ao percentil 95), entre outras medidas do governo PSD não auguram
futuro melhor para o índice Gini português.
Recordo-me
de Sócrates prometer poupar os mais pobres. Recordo-me de, com outra face, outra
cor partidária, mas o mesmo objectivo de consolidação orçamental, Coelho
prometer igual. Será?
Caros
governantes. Num período em que vivemos obcecados por finanças, por números,
por dinheiro, nada me surpreende que Vossas Excelências sejam cegas às desigualdades,
que se refugiem nas falsas igualdades de certas medidas, e que não vos tire nem
um minuto de sono que cada vez mais famílias tenham dificuldade em colocar algo
em cima da mesa para comer.
Dou-vos de
barato a despreocupação.
Mas agora a
sério, falando a vossa linguagem, não acham que medidas que realmente toquem
mais no bolso dos mais ricos que no dos mais pobres vão trazer mais dinheiro
para o lado do estado? Senão vejamos, os 20% mais ricos têm, indubitavelmente,
mais dinheiro que os 20% mais pobres (por definição de riqueza). Vejamos ainda
(se a memória não me falha, algures no sétimo ano, aprendemos o conceito de
percentagem) o impacto de um aumento de 17% no preço de produtos “de luxo”.
Façamos o
exercício.
Um determinado
produto básico produzido em Portugal era, em 2011, taxado a 6%. Em 2012, como
empobrecemos, passa a ser considerado um produto “de luxo”. Custava, em 2011, 1
euro (IVA incluído).
Um cidadão
anónimo tem 485 euros de rendimento mensal. Soares dos Santos tem um rendimento
mensal com tantos dígitos que não caberia neste blogue.
a) Quantas unidades deste produtonacional
que passa a ser um luxo consegue o cidadão anónimo comprar com o seu salário,
após o aumento do IVA?
R: 485 / 1, 17 = 414 (assumindo que
não podemos comprar partes, nem ficar a dever). O poder de compra deste senhor
desceu, efectivamente.
b) Quantas unidades deste produto
nacional que passa a ser um luxo consegue Soares dos Santos comprar, com o seu
rendimento, após o aumento do IVA?
R: Qual produto nacional? Mas eu
agora só compro erva holandesa…E o Pingo Doce nem foge aos impostos… Juro… Os
lucros é que pagam impostos na Holanda! Acha mesmo que eu estou para perder
milhões com esta brincadeira? Isso fica para os pobres que, não podendo emigrar
para a Holanda, também não têm lucros a tributar.
Caros
governantes. Acreditam mesmo que caminhamos para uma sociedade mais justa com
estas medidas?
Pintelho
Fonte: Público - Austeridade induz aumento da desigualdade em Portugal
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