Caro leitor,
Sou assumidamente um consumidor da era dos bits e bytes.
Mas esta manhã, enquanto caminhava para o local de trabalho, dei por mim a pensar na evolução do dinheiro, e dos seus impactos no consumo, sobretudo nos últimos anos. Na verdade, não pensei mais que alguns segundos, mas o suficiente para gerar um post.
Antes do aparecimento da moeda, trocávamos bens, e o valor da coisa dependia da necessidade de quem transaccionava. Era a era da necessidade.
Depois, perdeu-se a piada toda, e começámos a trocar papeis e chapinhas metálicas.
Nessa altura, dávamos realmente valor ao dinheiro, porque era visível. Aparecia e desaparecia das nossas mãos. Pensávamos duas vezes antes de deixar o impulso consumista levar a melhor. O consumismo dava, então, os primeiros passos.
Recentemente, com o sistema bancário em alta, o dinheiro de plástico apoiou o fenómeno. O consumidor deixou de entregar algo físico em troca do produto, para passar a introduzir um PIN. Ainda assim, a introdução do PIN reveste-se de um sentido de "autorização para" que, apesar de constituir um acto rápido e discreto, trava o consumo. Contudo, este handicap, muito inteligentemente, tem sido contornada na última geração de lojas.
Sou um consumidor de produtos App Store e iTunes. Entrei hoje no Android Market, mas ainda não lhe associei um cartão de crédito, pelo que as linhas que se seguem dizem exclusivamente respeito ao excelente trabalho dos psiconomistas da Apple.
Quando criamos um Apple ID, são-nos pedidas meia-dúzia de informações, fáceis e rápidas de preencher. E pequenos sinais verdes (verde significa aprovação. Todos queremos ver sinais verdes. Vermelho é para parar...) vão reforçando o preenchimento dos espaços. Assim, quando se trata de preencher os campos referentes ao cartão de crédito, estamos emocionalmente receptivos a introduzir essa informação. E esse é só o primeiro passo para fomentar um novo estilo de consumo. Não só fornecemos dados que permitem aos fornecedores debitar-nos dinheiro, como o fazemos com um sorriso nos lábios.
Posteriormente, ligamo-nos à App Store, e a password só nos é pedida uma vez por cada sessão. Ao limite, uma sessão dura tanto como a bateria do iDevice que estamos a utilizar. E a App Store esta está recheada de aplicações grátis. E habituamo-nos a carregar no "Free" (a cinzento) e vê-lo passar a um verde "Install app". Descarregamos, usamos e não deitamos fora, fica a ocupar espaço.
Até que chega o dia em que a aplicação que tanto nos chama a atenção tem um cinzento 0,79 euros. Tâo pouco? Eu gosto de ver o botãozinho verde. Gosto mesmo, e até é bem maior que o cinzento. E pimba. Mudamo-lo para verde com um simples toque no ecrã. "Buy app". Pois, está bem. E ela lá nos aparece no iDevice. Igualzinha às grátis. Nem notamos a diferença. Até que, uns dias depois, são menos uns trocos na conta. Uns dias depois, já algumas aplicações como esta foram descarregadas. E outras, mais dispendiosas. Tudo por causa do "verde" no registo, do "verde" que associamos a "grátis", a "descarregar", do imediatismo (se estivermos ligados por Wi-Fi, então, uma aplicação instala-se em segundos) e, sobretudo, da camuflagem quase perfeita do acto de comprar. E o iTunes, que organiza logo as nossas compras por artista, álbum, género, ano, tudo com direitos pagos, e por míseros cêntimos, e muito mais rápido do que sequer o tempo de irmos à loja de discos mais próxima, comprar um disco para...
Esta foi só mais uma das batalhas que a Nokia perdeu. A batalha dos sinais "verdes". Gastar dinheiro, com a Apple, é divertido. E assim se gerou um mercado milionário, às custas de cêntimos. Novos desenvolvimentos, aguardam-se. Por cá, facilmente imagino os adultos a gastarem dinheiro como miúdos brincam com carrinhos. Só que estes carrinhos são mais dispendiosos, no final de contas.
Pintelho
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