segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Um fim-de-semana histórico para o jornalismo português

Ao longo dos poucos dias que este blogue tem de vida, o leitor já se deve ter apercebido que ando meio de candeias às avessas relativamente ao jornalismo português.
Este fim-de-semana acompanhei o Congresso histórico da CGTP pelos jornais e por uns breves cinco minutos de televisão.
Carvalho da Silva, figura histórica da Central Sindical e do pós 25 de Abril em Portugal, abandona o secretariado-geral. Substitui-o, com uma tarefa complicada, não só pela responsabilidade de tomar o lugar de um líder carismático - goste-se ou não -, mas também pela conjuntura em que chega ao topo da hierarquia sindical, Arménio Carlos. Ex-deputado do PCP, representa a maioria, que nele votou e que o elegeu, numas eleições em que correu sem opositores.
Correntes minoritárias da CGTP como socialistas, católicos ou bloquistas, manifestaram divergência de opinião durante o processo eleitoral. Houve inclusivamente, abstenções.
Um acto, portanto, perfeitamente normal em democracia.
Após as eleições, com uma unidade típica naquela central, representantes do PS, BE, e ala católica, assumem Arménio Carlos como o líder de toda a CGTP, e não como o líder comunista da CGTP em que o Partido goza de uma hegemonia.
Estranho seria, num processo democrático, ganhar a minoria.

Os nossos media, contudo, para não variar, procuram tirar nabos da púcara "Arménio não representa minorias", "Abstenção de militantes bloquistas", "Católicos descontentes",...
Ligo a televisão, Sábado de manhã, e tenho a infelicidade de presenciar uma entrevista deplorável a Carlos Trindade, líder da corrente socialista da central.
-"Então, e o que acha da eleição de mais um nome comunista como líder da CGTP?"
- "É o líder de todos nós, eleito democraticamente e, portanto, de plenos direitos!"
-"Mas sei que discordam de algumas das posturas do novo secretário-geral..."
-"Como sabe, as correntes minioritárias debateram, no devido tempo, a candidatura de Arménio Carlos. Acredito que o debate a enriqueceu e formou um Secretário-Geral ainda mais forte. O processo decorreu com normalidade e agora é o líder de todos nós."
-"E não acha que as minorias estão mal representadas?"
-"Como minorias, não poderíamos ter uma maioria executiva. Estamos representados de forma proporcional, e unidos em torno de um novo SG que representa todos os sindicalistas da CGTP!"
-"Mas... É um comunista [nota: as palavras poderão não ter sido exactamente estas, mas a ideia está cá]..."
-"Como disse, na devida altura, debatemos a candidatura, que elegemos democraticamente. Repito que Arménio Carlos é, agora, o secretário-geral de todos, e não apenas dos comunistas!"
- "Vá lá, diga lá que está descontente, por favor..."

E assim, de um congresso histórico para a CGTP, a esmagadora maioria das notícias relega para segundo plano a substituição do histórico líder (concorde-se ou não com as opiniões do mesmo), preferindo entrar em polémicas inexistentes. Como se nos dias que correm desse mesmo jeito aos trabalhadores verem os sindicatos fraccionados...

Mas este discurso, o da crise, o do "'tá tudo mal, pá!", o das polémicas, tablóides, e afins é, infelizmente, o maioritario e democraticamente eleito, em processo de audiências, pelos consumidores de jornalismo em Portugal. É, portanto, o jornalismo de todos nós.
Resta-me esperar que os jornalistas que procuram fazer jornalismo mais sério, informativo e credível deixem de ser censurados. Mas isso seriam outros quinhentos.

Desta púbis vai uma merecida homenagem para o homem que, ao longo de vinte e cinco anos, defendeu até às últimas consequências aquilo em que acredita. Precisamos de pessoas assim! Comunistas, socialistas, sociais-democratas, o que seja. Precisamos de mulheres e homens assim.

Pintelho

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