segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O esperto cavalo Hans

Esta manhã, como tem vindo a ser meu hábito, descarreguei o jornal Público. Mal vi a capa, perdi a vontade de o "folhear".

Diz a capa "16 temas que vão definir o ano de todos os medos". Mas espera aí, medo?! Por que é que têm que me impingir "medo" na capa de um meio de informação? Eu não compro o medo!
Por dentro "Um governo sem Plano B", "O ano do grande empobrecimento", "Sob a ameaça da recessão global", petróleo a subir, euro a colapsar, guerra no Irão, Portugal tomado pelos estrangeiros... E a panóplia continua. São 16 medos, 16 profecias, nas quais Portugal desaba, a Europa não quer saber e o mundo brinca às guerras de poder.
Os tempos não são, efectivamente, de vacas gordas, nem de grandes expectativas, mas dedicar 9 páginas de um dos jornais diários de referência em Portugal a profetizar que o ano que celebramos será uma terrível efeméride, e que devíamos saltar para 2013 parece-me claramente um sintoma dos media que temos.
Se ligarmos a televisão, arriscamo-nos a, numa notícia tão inócua como o "bebé do ano", ouvir a jornalista questionar à mamã "Não tem vergonha de ser mãe nos tempos que correm, em que a crise domina a actualidade e a sua filha não terá qualidade de vida? Criminosa...".
Eu, por cá, não compro!

Pois bem, a ciência está cheia de exemplos mais ou menos conhecidos de um efeito poderosíssimo denominado de expectativas auto-confirmatórias (em inglês self-fulfilling prophecies). O cavalo Hans, que sabia resolver problemas matemáticos, o efeito de Hawthorne, Pigmalião, a ameaça dos estereótipos e o incontornável placebo mostram-nos que o simples acto de acreditarmos em algo aumenta fortemente a probabilidade de que esse algo se torne realidade.

O problema é que a economia - nacional e global - é feita por pessoas. Os mercados não são cegos, e as pessoas que neles se movimentam são tão vulneráveis a este efeito - dado adquirido, e incontornável - como quaisquer outras. Desde logo, o senhor jornalista que prevê que 2012 vai ser um ano mau. O leitor, que ao ler tal, abranda o consumo. O jogador da Bolsa, que vende e não compra. O ministro, que poupa e não pensa em crescer. O empresário que já se imagina a ter que despedir para que a empresa sobreviva, e despede, o banqueiro,... E a lista continua.

Tudo isto, caro leitor, para lhe explicar que, neste espaço, o pessimismo fica de fora. Por cá, não pretendo ser o aluno que, ao acreditar que vai tirar negativa no teste, aconteça o que acontecer, não se preocupa em estar atento nas aulas e deixa de estudar para, mais tarde, se lamentar com um "Eu sabia...".

Eu não compro o medo dos media. E não lho quero vender. Aqui falamos com realismo optimista, e vamos dar a volta.

Fica a primeira reflexão, inacabada (para que o placebo surta efeito), do ano e do blogue.
Por cá, prometo falar-vos antes dos "16 temas que vão marcar o ano da esperança na reviravolta".

Pintelho

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